QUANDO O COACHING ENTRA NA ESCOLA, O ENSINO SAI PELA PORTA.
As técnicas de Lemouv são técnicas de couch aplicadas à educação. Elas colocam o professor como um vendedor de um produto e a aula como produto.
Nessa visão o aluno deve ser visto como um cliente que vai comprar o produto e precisa ser agradado e engajado, induzido a participar dessa situação.
A educação contemporânea incorporou técnicas de coaching, marketing e gestão de pessoas e passou a tratar o aluno como consumidor, a aula como produto e o professor como um “facilitador” responsável por tornar esse produto atraente.
O resultado é uma inversão completa das prioridades educacionais.
Na educação clássica, o aluno precisava concentrar-se, memorizar, exercitar, repetir, corrigir, dominar conceitos e adquirir conhecimento progressivamente.
Hoje, concentração é frequentemente tratada como algo ultrapassado.
O treino é substituído pela falação.
A repetição, necessária para a aquisição de habilidades, passa a ser vista como algo enfadonho.
O professor que explica, demonstra, corrige e exige precisão é substituído pelo “mediador” que organiza dinâmicas e pergunta ao aluno o que ele “acha”.
A gramática é substituída pelo achismo.
Em vez de estudar a estrutura da língua, suas regras e seu funcionamento, importa a “expressividade”, a opinião, a comunicação espontânea e a produção de discursos — ainda que linguisticamente pobres e conceitualmente frágeis.
A matemática e a lógica são substituídas pelo “vire e converse”.
Em vez de dominar operações, procedimentos, relações lógicas e resolver problemas com rigor, o aluno é colocado em grupos para conversar sobre aquilo que, muitas vezes, ainda não sabe.
E então surge a grande inovação pedagógica:
“Converse com seu colega.”
Como se conversar produzisse conhecimento automaticamente.
Como se socialização fosse sinônimo de aprendizagem.
Como se colocar crianças em círculos, distribuir cartolinas, promover dinâmicas e estimular opiniões pudesse substituir o estudo sistemático.
O conteúdo passa a ser secundário.
O que importa é a "atividade".
O que importa é a "participação".
O que importa é o "protagonismo".
O que importa é que a aula pareça dinâmica de grupo.
Não importa tanto se o aluno aprendeu a escrever corretamente.
Não importa tanto se consegue fazer uma operação sem ajuda.
Não importa tanto se compreende uma regra gramatical, um princípio lógico ou um conceito matemático.
Desde que participe.
Desde que fale.
Desde que interaja.
Desde que produza alguma coisa.
É o "teatro da aprendizagem."
A escola começa a ser administrada como uma experiência de consumo: o aluno não deve ser contrariado, não deve se entediar, não deve enfrentar excessivamente a dificuldade e, principalmente, não deve sentir que está simplesmente estudando.
Porque estudar exige esforço.
Exige silêncio.
Exige concentração.
Exige repetição.
Exige disciplina.
Exige enfrentar aquilo que ainda não sabemos.
E isso não combina muito bem com a pedagogia transformada em espetáculo.
A educação clássica entendia uma coisa elementar: Não existe domínio do conhecimento sem treino.
Ninguém aprende música apenas conversando sobre música.
Ninguém aprende matemática apenas discutindo matemática.
Ninguém aprende gramática apenas expressando opiniões sobre a língua.
Ninguém desenvolve raciocínio lógico simplesmente “socializando”.
É preciso estudar.
É preciso praticar.
É preciso treino.
É preciso corrigir.
É preciso repetir.
É preciso dominar.
O professor não é um animador contratado para vender uma experiência agradável.
E o aluno não é um cliente que precisa ser permanentemente entretido.
A escola não é uma empresa de eventos.
Vire e converse não é prática pedagógica, muito menos técnica de ensino.
A função da escola é ensinar.
E ensinar significa colocar o aluno diante do conhecimento — inclusive daquele conhecimento que ele ainda não quer, não gosta ou não consegue dominar imediatamente.
Trocar concentração por distração, treino por dinâmica, conhecimento por opinião, precisão por relativismo e ensino por socialização não é modernizar a educação. Mas sim descaracterizá-la .
No fim, sobra uma escola cheia de atividades e cada vez mais pobre em conhecimento.
Muito movimento.
Muito discurso.
Muito protagonismo.
Muito “vire e converse”.
E pouco ensino.
A concentração, o silêncio, a arte da gramática, o raciocínio lógico estruturado é trocado por técnicas de couch, de vendas e de participação.
Essas "estratégias dialógicas " podem ser vistas como ilustração de uma aula real, mas jamais podem ser vistas como técnicas de ensino.
Professor Dener José Datti. Especialista em Educação.

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